PERSONNAGES DE LA RÉPUBLIQUE

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Os bons tempos voltaram! Vocês se lembram de Sebá? O Último Exilado – aquele que não acreditava nas notícias que lhe chegavam do Brasil e achava que a esposa que aqui ficara, se amancebara e não oqueria de volta?

Coisa de louco! Hoje também, como na década de1980, quando Jô Soares criou o personagem, Sebá não acreditaria em nada. Imagine se Bolsonaro, o Inimigo da Velha Política, teria acertado tudinho com o Centrão e adotado (como conselheiro) justo Michel Lulia Temer? Bolsonaro não deve entender direito a empolada fala de Temer. Então tá! Talvez o esteja confundindo com Olavo de Carvalho. Vocês acham que Sebá acreditaria quando ouvisse o presidente se
referir a seus ministros como Fura-Tetos?

Eu sou do tempo em que chamar alguém de Fura-Teto era insultá- lo. Hoje Bolsonaro chama seus homens de confiança de Fura-Tetos como um elogio. Há alguns anos, talvez os brindasse com uma voltinha no primeiro Fusca Teto Solar – que o mercado rejeitou e o apelidou de Cornowagen – se é que me entendem. Diziam que o teto era pra deixar o chifre do lado de fora. Também sou do tempo em que a saída de dois assessores de ministro ainda não se chamava “debandada”.

Velhos tempos! Novos dias! Dizia-se que, se um banqueiro tivesse olho de vidro, não seria difícil identificá-lo: um de seus olhos teria mais brilho, mais calor humano – o de vidro – claro. Hoje, um operador financeiro com longos anos de êxitos acredita quando o presidente lhe diz que apoia sua política e rejeita a dos Fura-Tetos. E os Fura-Tetos rebatem: “pensam que nós acreditamos que não querem furar o teto de gastos, só querem algum dinheiro para promover o bem do Brasil”. Oh! Coitados!

A vida tem muitas retas e curvas, além de outras nuances. Bolsonaro exerceu a deputança por 28 anos, votou com Lula e Dilma na maior parte das vezes. Disse que votou em Lula para presidente “por causa da honestidade dele”. Acabou virando “liberal na economia” somente nas eleições de 2018. Paulo Guedes sabia disso (como Sergio Moro também sabia). Liberal na economia, pelo jeito, significa liberar a gastança. Mas daí a sair do Governo é outra coisa. Como disse o esplêndido escritor americano Mark Twain, nós temos os melhores eleitores que o dinheiro pode comprar. Afirmam os adversários do presidente que ele começou a se recuperar nas pesquisas depois que parou de falar. O importante é lembrar que, num país pobre, os R$ 600,00 de auxílio resolvem os problemas imediatos da população mais pobre e a fazem olhar com carinho para quem a beneficia. Se deixar de pagar… aí o bicho pega!

Curiosamente, Bolsonaro queria dar apenas R$ 200,00 de auxílio e foi Rodrigo Maia quem aumentou a verba para R$ 600,00, elevando também nas pesquisas o nome do próprio presidente. Num país mais organizado, a renda mínima seria uma política de Estado, não partidária. Guedes, fiel aluno de Milton Friedman, sabe tudo de renda
mínima, mas não a implantou. Junto com as reformas que defendia, deixou tudo na gaveta. Os 600 viraram coisa partidária e haverá problemas para manter os pagamentos. E é nessa hora que agem o Centrão e os Fura-Tetos. E o “cala a boca” continua mais firme do que nunca.

Fiéis como Bia Kicis, que é procuradora aposentada, de boa reputação profissional, sempre trabalhou na área do Direito. Mas pediu à Vara Cível de Brasília que censurasse uma reportagem da revista Crusoé sobre dificuldades para aprovação no Congresso da prisão de réus após condenação em segunda instância, embora o artigo 220 da Constituição proíba a censura. Furou o teto! Importante: o que a Constituição garante não é só a livre expressão, mas também o direito do cidadão de receber informações. Sempre que houve censura o cidadão foi prejudicado. Um dos temas censurados naquela ditadura que dizem que não houve foi um surto de meningite. Sem informação,
as pessoas não se protegiam. Como diria alguém: “todos vamos morrer mesmo, não é?” Mas o custo do cala a boca vai além. O pedido da deputada federal Bia Kicis atingiu reportagem sobre a pouca vontade dos bolsonaristas em aprovar a medida. Bia Kicis fez 40 discursos na Câmara em 2020 sem mencionar a segunda instância nem uma só vez. Digamos que, em certos casos, só mesmo a censura para salvar a face.

Uma boa notícia que vem de fora: engenheiras israelenses de software organizaram uma hackathon (maratona de programação de elite) para desenvolver aplicativos que ajudem a proteger mulheres vítimas de violência doméstica e as auxiliem a denunciar agressões e assédio. A ideia nasceu de uma tragédia: em outubro do ano passado,
Michal Sela foi morta a facadas pelo marido. A irmã dela, Lilian Ben Ami, criou, com um grupo de amigas, o Safe Home Hackathon, que conquistou o apoio de Facebook, Microsoft e SalesForce e reuniu mais de 1.800 profissionais de tecnologia, divididos em 54 grupos. Um destaque é o aplicativo MedFlag, que usa dados do sistema nacional de
saúde para identificar vítimas com machucados recorrentes e protegê- las. Outro é o Stay Tuned, camuflado num smartphone, que registra sons quando está aberto e os envia imediatamente para outras pessoas, via nuvem. Pode que dê certo. Torcemos para que dê!