Não pense você que o presidente Bolsonaro é o único a mandar no ministro da Saúde. Qual é mesmo o seu nome? Ah! Nelson Teich – oncologista carioca e milionário, que aceitou até a perder a reputação para colaborar com o governo, mas que tem sido desprestigiado cotidianamente.

O presidente, aliás, nem se dá ao trabalho de mandar: passa como um trator por cima dele. E Teich que descubra. Durante uma entrevista quando os repórteres lhe perguntam o que foi feito pelo seu Ministério, ele pouco tinha a dizer. Bolsonaro não tem a menor preocupação com o que o ministro vai achar: “ele não vai achar nada”! E é provável que goste: embora tenha de pedir aos repórteres que lhe contem o que acontece na sua área, se continua no cargo, mantendo obsequiosa obediência ao rei.

O fato é que não dá nem para disfarçar: acaba dando respostas vagas. Até seu rosto sempre impassível mostra que não sabia de nada. Mas Bolsonaro vá lá: afinal de contas, é seu superior hierárquico, graças a ele deixou de ser conhecido apenas nos círculos médicos, virou estrela – estrela apagada, que já deu o que tinha que dar. Uma estrela anã, mas mesmo assim uma estrela.

Como já é de conhecimento geral, o ministro da Saúde tomou uma lição inesquecível ministrada por uma menina de apenas seis anos. Foi visitar sua mãe no domingo, e quando ia tomar o elevador a menina lhe disse que não podia entrar. Teich, de máscara, já dentro do elevador, perguntou por que, pois o elevador era grande. E teve de ouvir da menina aquela norma que, embora sendo o ministro da Saúde, esquecera: nos elevadores residenciais, só deve entrar uma família por vez. Ele saiu e pediu desculpas: ainda bem, é um moço educado. Mas, como naquela conhecida fábula, foi preciso que uma criança se antecipasse aos adultos e informasse que o rei estava nu.

Bolsonaro não aceita nada, nem de seus ministros

A FRAGILIZAÇÃO DOS ELOS

Bueno mis lectores amigos! Sigamos adelante. Gente amiga, Sérgio Moro parece mesmo que tinha razão. A história que narrou no depoimento à Polícia Federal foi confirmada pelo vídeo da reunião do Ministério em que, em meio a baixarias e palavrões, o presidente disse que precisava nomear o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro para proteger sua família. O filho mais velho de Bolsonaro, Senador Flávio, vem travando longa batalha judicial para se proteger de investigações, mas não da Polícia Federal. Há rumores, porém, de que outros dois filhos, Eduardo e Carlos, estejam na mira dos federais, por participar do esquema de distribuição de notícias falsas e convocação para atos antidemocráticos. Esta informação não foi oficialmente confirmada, mas circula em meio a multidão já há um bom tempo. E antigos aliados de Bolsonaro, hoje rompidos com ele, fizeram parte do esquema de comunicação da campanha presidencial. Tá certo, como diria Bolsonaro. Uma reunião fechada não exige os códigos de comunicação de uma reunião aberta. Mas houve ali, fora a linguagem pouco educada de alguns dos participantes, propostas francamente antidemocráticas: alguém propondo, por exemplo, a prisão de prefeitos e governadores – e dizendo que o faz em nome dos direitos humanos. A reunião não era aberta, mas esse tipo de proposta (como diria o ex-ministro Magri, lembram?) é “enquadrável” na Lei de Segurança Nacional. Mas não deve ir pra a frente, já que o caso mais importante é o do presidente. Mas se o procurador-geral da República quiser, pode trazer problemas a quem a fez. Eu disse: “se ele quiser”! Mas, Aras tá de olho na próxima vaga no STF… Lembrando um caso de outro país, tudo o que ocorreu entre o presidente Bill Clinton e Mônica Lewinsky foi fechado ao público, e por pouco Bill Clinton não caiu. Teve ainda o caso Watergate em 1974. Aí o presidente se ralou. Tentou destruir provas e acabou tendo que renunciar para não sofrer impeachment. Mas este é um fato político histórico que abordarei em outra ocasião.

Clinton titubeou a quase perdeu o cargo de presidente

COM QUEM ESTÁ A RAZÃO?

Do jeito que Moro saiu, com uma carta contundente, que Bolsonaro não hesitou em desmentir, há duas possibilidades: Ou Moro está com a razão, e Bolsonaro está sujeito a responder pelas propostas ilegais – ou Bolsonaro é quem tem razão, e Moro está sujeito a responder por denúncia caluniosa. Mas (como já disse alguém) estamos no Brasil e há uma terceira possibilidade: ao receber o inquérito, o procurador Augusto Aras pode achar que não há motivo para oferecer denúncia contra ninguém. Pronto, caso encerrado! É sempre bom lembrar que impeachment precisa ter embasamento jurídico, mas só vai pra frente também tiver embasamento político – o que neste momento, com Bolsonaro se aproximando do Centrão, não tem. Neste momento, com cerca de 30% do eleitorado a seu favor – e metade deles, pelo menos, fanaticamente a favor -, não se pode falar em impeachment. Bolsonaro ainda precisa de desgaste maior para virar um alvo definitivo.

De qualquer forma, o presidente vem se esforçando muito para aumentar seu próprio desgaste. Cada dia é uma nova história. Já existe hoje mais gente que considera seu Governo péssimo ou ruim do que os que o consideram ótimo ou bom. Até nas redes sociais, onde ele tinha muita força – e também muitos robôs – Bolsonaro vem sendo derrotado há mais de 50 dias. Mas mesmo com isso, vendo a vaca indo para o brejo, ele mantém seu estilo briguento de administrar, como o ocorrido na manhã desta quarta-feira. Hoje, no Supremo, tem relacionamento melhorzinho (pero no mucho) com Toffoli e Luiz Fux. Com os outros nove, é ruim. Tem tido derrotas seguidas no STF. No Congresso, ao aliar-se ao Centrão, entregando bons cargos aos seus integrantes, está mais tranquilo. Mas o Centrão normalmente reivindica o tempo todo e todo o tempo. Como nos tempos de hiperinflação, o preço de hoje é sempre menor que o de amanhã.

Decisão final pode ser do STF, tanto de um lado quanto de outro

HISTÓRIA DE UM MITO CEIFADOR

Qualquer semelhança pode não ser mera coincidência. Midas, rei da Frígia, nação situada onde hoje é a Anatólia, na Turquia, foi um grande MITO dos tempos antigos. Ele tinha um filho famoso, ciumento do pai, de quem se considerava protetor. Seu apelido era Ceifador de Homens, por sua insistência em decapitar todos aqueles de quem desconfiava – talvez Ceifador de Homens tenha ainda outro significado, mas como saber quase três mil anos depois? Midas, o Mito, pediu aos deuses o dom de transformar em ouro tudo o que tocasse. Dizem que os deuses, quando querem destruir alguém, atende a seus pedidos.

Midas ficou feliz: transformou uma árvore em ouro, tocou a espada e a tornou de ouro. De volta ao castelo, o primeiro problema: abraçou sua filha e ela se transformou em ouro. Toda a comida virou ouro e ele não conseguia mais alimentar-se. Os vinhos que apreciava, em ouro se tornaram. Sozinho, com fome e com sede, apelou novamente aos deuses – que pelo jeito jamais ficaram muito longe dele – e a bênção foi retirada para que ele sobrevivesse.

Mas Mito é Mito: Pã, o deus do pé de cabra, desafiou outro deus, Apolo, para um duelo de flauta. O deus Tmolo foi o juiz e deu a vitória a Apolo. Midas se irritou e desafiou o supremo magistrado. Apolo, indignado, fez com que as orelhas de Midas se transformassem em orelhas de burro. Midas passou o resto da vida usando turbante, ocultando de seus súditos as orelhas de burro que ganhara. Estas, não houve milícia de deuses que as removesse. Como veem esta coluna não é só política. Também trata de História. História que tem se repetido por aqui nesses tempos de pandemia. O Mito de Midas é lembrado até hoje. Apenas para ilustrar esse nosso comentário, a atriz Britney Spears, no sucesso Radar, diz que procura “um homem com o toque de Midas”. Em Act my Age, a cantora Katty Perry ressalta: “Dizem que tenho de perder meu toque de Midas”. E o contrário também vale: cita-se muito o Rei Sadim – um Midas ao contrário -, aquele que tudo o que toca vira lixo. Botou a mão, estraga. Nem a Namoradinha do Brasil escapou… e finalmente virou o fio. Na semana passada, em entrevista à CNN chegou a dizer que a Ditadura foi um bem para o Brasil, e quando perguntada sobre os milhares de mortes que estão ocorrendo devido ao coronavírus, disse: “todos os dias morre gente”!

UMA SEMANA DECISIVA

A reunião ministerial que está dando o que falar

O ocupante do Palácio do Planalto pode ser denunciado ainda nesta semana pela Procuradoria-Geral da República por corrupção passiva e outros crimes, como obstrução de Justiça e advocacia administrativa por tentar interferir na autonomia da Polícia Federal. São motivos suficientes para afastá-lo da Presidência da República. Se Bolsonaro for denunciado pela PGR e, se a Câmara aprovar o prosseguimento das investigações, Bolsonaro será afastado do cargo automaticamente por 180 dias. O ministro Celso de Mello, do STF, pode decidir também nos próximos dias sobre a publicidade do vídeo da reunião ministerial em que Bolsonaro teria ameaçado Moro de demissão caso não trocasse o diretor-geral da PF. A ampla divulgação do vídeo (que se ocorrer) pode gerar um agravamento da crise política e institucional no país. Durante a reunião ministerial gravada em vídeo,

membros do alto escalão do governo teriam feito severas críticas aos Poderes Judiciário e Legislativo e ataques à China. O chanceler Ernesto Araújo teria atribuído à China a responsabilidade pela pandemia do coronavírus, que ele chama de “comunavírus”, com a anuência de Bolsonaro, o que pode gerar mais uma crise diplomática com o maior parceiro econômico e comercial do Brasil.